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o
sol cai uniforme
morno,
saudável
agradável
no
céu derretido em azul
rabiscado
de algodão
as
folhas da amendoeira
sangram
desejos intensos
a
natureza pintando o dia
convite
à indolência do sagrado admirar
o
mar aconchegado entre as coxas das montanhas
tranquilidade
suavidade
naturalidade
quase
paz
um
enquadre imperfeito
porque
incompleto pelo estreito do olhar
e
o belo interrompido
na
linha branca e tênue que separa o sonho do real
gentes
que vêm e vão
alheias
ao canto dos pássaros invisíveis
à
paleta multicor
ocupadas
separadas
isoladas
preocupadas
são
como as folhas mortas que pisam
e
no meio do caminho tem um poste
que
não veem
falo
simbólico de sua eterna busca
pelo
céu que não alcançam
tudo
é contraste
o
azul e o vermelho
o
mar e os corpos
a
pedra e a água
areia
e asfalto
eu só observo, de longe
faço um registro singelo
puro voyeurismo fluido do entorno
desenho e pinto e busco inspiração
para as palavras que quero dizer
não sei bem quais são
mas sei bem que virão
sou o meio do caminho
entre a paisagem e você
que não me vê
que vê o que eu vejo
que sente o que eu sinto
jogo de espelhos
o traço oceânico que
encontra o traço pétreo que continua no traço da cor que se transforma no traço
de pernas e braços que se torna o traço das palavras que são o traço do pensar
que reencontra o traço do ver que é a continuidade do contraste da vida que é a
vida do contraste que é o traço do sentir que é o traço do eterno que é a
continuidade da diferença do eu e do você e do outro e de todos e de tudo ao
mesmo tempo que é o traço de união entre o antes e o depois que é o resultado
do agora que jamais começa e jamais termina...
Rio, 2018

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