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Dueto #4 - LHSM-JMS



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o sol cai uniforme
morno, saudável
agradável
no céu derretido em azul
rabiscado de algodão
as folhas da amendoeira
sangram desejos intensos
a natureza pintando o dia
convite à indolência do sagrado admirar
o mar aconchegado entre as coxas das montanhas
tranquilidade
suavidade
naturalidade
quase paz
um enquadre imperfeito
porque incompleto pelo estreito do olhar
e o belo interrompido
na linha branca e tênue que separa o sonho do real
gentes que vêm e vão
alheias ao canto dos pássaros invisíveis
à paleta multicor
ocupadas
separadas
isoladas
preocupadas
são como as folhas mortas que pisam
e no meio do caminho tem um poste
que não veem
falo simbólico de sua eterna busca
pelo céu que não alcançam
tudo é contraste
o azul e o vermelho
o mar e os corpos
a pedra e a água
areia e asfalto

            eu só observo, de longe
            faço um registro singelo
            puro voyeurismo fluido do entorno
            desenho e pinto e busco inspiração
            para as palavras que quero dizer
            não sei bem quais são
            mas sei bem que virão
            sou o meio do caminho
            entre a paisagem e você

                        que não me vê
                        que vê o que eu vejo
                        que sente o que eu sinto
                        jogo de espelhos

o traço oceânico que encontra o traço pétreo que continua no traço da cor que se transforma no traço de pernas e braços que se torna o traço das palavras que são o traço do pensar que reencontra o traço do ver que é a continuidade do contraste da vida que é a vida do contraste que é o traço do sentir que é o traço do eterno que é a continuidade da diferença do eu e do você e do outro e de todos e de tudo ao mesmo tempo que é o traço de união entre o antes e o depois que é o resultado do agora que jamais começa e jamais termina...

Rio, 2018

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